Mapa dos destinos hipotéticos
Castas, temperamentos e circunstâncias
ENSAIO
6/30/20195 min read
Fonte: Medium/2019
Não se tem notícia de um recém-nascido que ao deixar o ventre, saísse andando e emitindo opiniões sobre a vida ou o que quer que seja. É fato incontestável que todo ser humano vem a este mundo completamente inexperiente e dependente de tudo. A necessidade de orientar-se no mundo é instantânea e interminável, e a própria mecânica mesma do aprendizado só se perfaz com a experiência ao longo do tempo. A ordem dos conhecimentos necessários à vida, vai da percepção do próprio corpo à aquisição da linguagem; da imensa multiplicidade de modos de vida ao domínio de alguma técnica e assim por diante. Todos nós, sem exceção, incorporamos inevitavelmente aspectos da vida de outras pessoas. Nesta clave, é menos comum as pessoas, desejarem grandes pretensões de ser um tipo como São Francisco de Assis, um Napoleão Bonaparte ou um Steve Jobs, mas isso não quer dizer necessariamente que tais pessoas não venham a ter uma vida importante ou interessante mesmo que ninguém saiba.
Assim sendo, todos nascemos necessitando saber da vida; este saber nasce na própria experiência, e está contido no legado cultural que adquirimos através da família, das tradições, da literatura, etc. Nesse caldo cultural, surge uma visão de mundo — a chamada cosmovisão — e com ela, uma questão fundamental: Quem eu quero ser?
Evidente que essa pergunta não se trata de uma preocupação relacionada a emprego, mas ao movimento que todo ser humano faz em busca da realização pessoal que o trabalho, seja ele qual for, é apenas uma tradução externa das razões pelas quais bate o coração.
Quando aos seis anos de idade, meu avô me surpreendeu pelo braço perguntando quem eu queria ser quando crescesse — eu nunca tinha chegado a pensar no assunto — no momento só me veio a resposta: não sei! Mais tarde, estreei no mundo do trabalho como instrutor de informática. Cada degrau que eu alcançava, parecia ser o degrau definitivo, porém, logo aparecia nova possibilidade da qual eu prontamente me habilitava nu crescendo “desilusão” com a anterior, ou seja, a cada degrau profissional eu achava que era o último e sempre aparecia uma novidade.
Pois bem, até aqui sabe-se que decidir quem se quer ser é um problema que em maior ou menor medida, todos nós em algum momento da vida o temos.
Na sociedade atual o ‘quem eu quero ser’ é um produto que está na prateleira do supermercado de vidas possíveis; mas essa expectativa nem sempre se cumpre, não se pode simplesmente dizer: eu quero ser médico ou quero ser governante. Em muitos casos atualmente, o desejo de ser alguém, está atrelado não a sondagem do próprio coração, mas a papéis sociais. É fácil distinguir que ‘médico’ e ‘governante’ são funções sociais e a relação entre função social e personalidade é deveras problemática. É preciso participar dessas possibilidades imaginativamente e sentir, por assim dizer, com o coração — se é isso mesmo que realmente se quer.
Para muitas pessoas é tentador pensar que, uma vez assentados certos pontos da vida como: emprego, relacionamento amoroso, etc. a vida para estas pessoas já tenha se definido, mas basta um acontecimento inesperado para mudar todo o rumo da história a despeito da estabilidade imaginária dos envolvidos. No romance publicado pela primeira vez em 1886, A morte de Ivan Illich, (Tolstói, Leon — L&PM pocket, 2007) trata disto mesmo. Ivan Ilitch, um juiz em plena ascensão social; após mudar para uma nova casa — durante a arrumação — se machuca ao cair de uma escada; a partir daí, vê sua vida inteira desmoronar e o foco existencial que se pautava pela eficiência profissional e econômica, passa a ser pautado pela problemática do destino da vida, ou seja, a morte.
Ainda há o fato indiscutível de que as pessoas já demonstram um certo tipo de temperamento nos primeiros anos de vida e, um pouco mais tarde, evidenciam também um certo tipo de inclinação para determinadas atividades. Estas inclinações são precisamente o que se denominam de castas. Em ‘O Sentido das Raças’, (Ibrasa, 2002), Frithjof Schuon as chama de ‘manutenção hereditária’. As castas não são — como boa parte da crendice popular as entende — determinações sociais deliberadas; em linhas gerais, são ‘inclinações espirituais’. São elas: shûdra, vaishya, kshatriya e brâhmana. As definindo grosseiramente, o shûdra é a pessoa incapaz de planejar a própria vida; por outro lado, é altamente adaptável à trabalhos necessários a sua subsistência. O vaishya é a pessoa que é pautada pela eficiência; ou seja, a pessoa que foca suas atividades na busca de resultados. O kshatriya é a pessoa que busca servir a valores que valem mais que a própria vida, algo que está acima dela mesma: a vitória, a glória; a nobreza de conduta; etc. E por último, o brâhmana é a pessoa voltada a decifração do mistério da vida: conhecimento, transcendência, salvação, etc. Junto a isso, creio que o temperamento, — a forma predominante do tipo de relacionamento que cada pessoa tem para com o próximo –, seja importante no desenvolvimento e autoconhecimento, mas não creio que seja determinante. Os temperamentos também são quatro: colérico, sanguíneo, melancólico e fleumático. Sabendo ou não, querendo ou não, todos nós temos essa trinca existencial: quem eu quero ser (desejos e aspirações); casta e temperamento. Considerando isto, podemos então nos abrir e entrever o chamado de realização pessoal que clama no alto-falante do coração.
Além da dificuldade subjetiva que temos em nos orientar conscientemente em realizar-se, existem as dificuldades objetivas como as circunstâncias sociais, por exemplo. A partir do século XIX (um pouco antes) com a invenção de tecnologias que facilitaram o surgimento de possibilidades de ascensão social indiferente à inclinação espiritual, pulularam e são abundantes até hoje, pessoas que não tinham um interesse existencial em certas atividades, mas se prestaram a desempenhá-las o tanto quanto mais dinheiro e prestígio social lhes desse. Na literatura essa imagem da subida na escala social já aparece com Stendhal no romance O Vermelho e o Negro, onde a personagem principal Julien Sorel, filho de um carpinteiro, almeja ascender socialmente quase a qualquer custo.
Com a devida atenção, pode-se perceber esta tensão entre as aspirações pessoais e as circunstâncias existenciais das quais se está vivendo; circunstâncias psicológicas, sociológicas, econômicas, etc. Assim sendo, surge a inevitável pergunta: como é que se faz para resolver esse problema? Evidentemente eu não sei. Cada pessoa tem problemas diferentes a resolver, no entanto, o que eu sei é que não se pode encontrar o caminho sem um mapa e o mapa está precisamente na história de pessoas reais e na especulação imaginativa de vidas possíveis, ou seja, na literatura universal e nos textos sagrados. É evidente que a literatura é um modus de transmitir esse conjunto de vidas possíveis, e isso também pode ser feito por outros meios como o teatro, cinema, telenovelas, etc., Enfim, saber histórias é enriquece-se de possibilidades.
Nós todos sentimos a necessidade de saber de outras vidas; de como alguém se sobressaiu em tal ou qual situação; como superou determinados limites; ou mesmo como foi o desfecho trágico ou afortunado de alguém. Esse desejo insaciável é parte constitutiva do próprio ser humano; do Otto Maria Carpeaux à fofoqueira da esquina. É como a morte mesma: é assim porque é.
Notas:
Sobre os 4 elementos e os 4 temperamentos | Luiz Gonzaga de Carvalho Neto e Pedro Sette Câmara. http://www.icls.com.br/aula/cosmologia-e-astrologia-medieval-aula-2/
Castas e temperamentos funcionam na alma humana como: proporção; ou seja, não é que o kshatriya seja totalmente desprovido de qualidades pertencentes exclusivamente as outras castas, mas referente à sua própria, as têm “proporcionalmente dominante”, e o mesmo se aplica aos temperamentos.